Um Tributo a Eric Serra

- Entrevistas -


Trilhas Sonoras e Músicas Pop
Um Longo Processo
Uma banda tocando músicas pessoais
Sons orgânicos e Jornada nas Estrelas
Ecletismo musical
Escrevendo letras
Pais Espirituais
Versões poliglotas
Flashback
Por Anthony Augendre

O processo de composição de trilhas sonoras para filmes é muito diferente do processo de composição de músicas pop?
É quase a mesma coisa porque ainda é música em ambos os casos. Ao mesmo tempo, é bem diferente porque quando se está sonorizando um filme você preenche os sonhos de outra pessoa, ajudando esta pessoa a torná-lo verdadeiro. Você pode ser verdadeiro quando compõe, mas tem que respeitar o fato de que está compondo para um filme. Quando você faz um álbum solo, então as escolhas são seus próprios sonhos. Você expressa tudo através da música ao invés de apenas fazer parte de alguma coisa. Eu diria que estas são as principais diferenças. Existem também várias diferenças técnicas. Compondo um disco você não tem que respeitar nada além de sua própria vontade e aquilo que quer expressar. Em um filme há uma série de detalhes técnicos como sincronização, como tomar cuidado com os sons do filme, dos diálogos, vários vetores técnicos que não existem em um álbum.

O álbum RXRA é o resultado de um longo tempo de reflexão ou foi produzido instintivamente?
Este álbum é o que eu gostaria de ter feito pelo menos dez anos atrás. A razão pela qual demorou tanto tempo foi a qualidade que eu queria que ele tivesse, mas eu não me sentia capaz disso. Especialmente as letras, porque foi a primeira vez que eu estava escrevendo e eu queria escrever por mim mesmo. Em segundo lugar porque iria cantar. Eu já havia cantado ates, mas era a principal coisa. Este disco me tomou anos e eu também estava compondo a trilha sonora do filme "Leon - O Profissional". Quando comecei tive que parar para compor as trilhas de "O Profissional", "Goldeneye" e "O Quinto Elemento". Então eu diria que foram pelo menos três ou quatro anos de trabalho, mas eu acho que será a última vez que vou demorar tanto para fazer alguma coisa. Agora eu sinto que quero fazer o próximo disco o mais depressa possível. Eu descobri que esta demora não é especialmente uma boa idéia. Foi difícil porque era meu primeiro disco solo, mas eu acho que seria mais interessante realizá-lo e fazer as coisas no momento em que eu senti que devia fazê-las. Assim você melhora para o próximo disco e não para um disco apenas.

Este álbum foi lançado como uma banda, mas você é um multi-instrumentista. Foi um trabalho em grupo ou um trabalho pessoal?
A concepção do álbum é muito pessoal originalmente. Eu escrevi as canções e as letras sozinho e muito isolado. Mas quando chegou a hora gravar, eu quis que fosse realmente como uma banda. Não como um cantor chamando músicos para tocar, mas eu quis realmente ter o sentimento de uma banda. Especialmente porque eu quero fazer shows e queria ter a sensação verdadeira de tocar com músicos. Isso era o que eu fazia quando mais jovem e o que eu realmente amava na música era tocar com meus amigos.

Você está rodeado por um estúdio que mais parece ter sido inspirado em "Jornada nas Estrelas", mas "RXRA" soa mais do que humano e natural. Era isso que você queria fazer?
Isso era algo que eu obviamente queria fazer por duas razões. A primeira é que eu queria seguir em direção exatamente contrária do que vinha seguindo nas trilhas sonoras. O trabalho de compor trilhas sonoras no estúdio é muito solitário. Eu estou em frente ao computador escrevendo, compondo e gravando quase tudo sozinho. A segunda razão - e provavelmente a mais importante - é que eu queria voltar a tocar com músicos, porque era o que eu precisava e o que eu mais sentia falta enquanto sonorizava filmes. É como se você estivesse em uma nave espacial. O estúdio é como uma nave espacial. você viaja para outras galáxias. É muito excitante e maravilhoso. Mas depois de um tempo, quando você tem que fazer isso por alguns anos finalmente você sente vontade de voltar e rever seus irmãos da raça humana, e como humano eu preciso disso. Foi muito interessante poder "explorar" sozinho, mas eu não quero passar toda a minha vida dessa forma. Eu prefiro estar com humanos.

Ouvindo o álbum RXRA pode-se sentir influências de jazz, funk e também música oriental. A música "étnica" ocupa um lugar próximo de seu coração?
Eu escuto muitos tipos diferentes de música. Eu ouço tudo: rock, funk, rythm'n blues, música clássica, música de qualquer país porque para mim só existe um tipo de música, a música. Eu sou sensível a qualquer tipo de música porque escuto muitas coisas. Quando componho eu uso - às vezes sem perceber - influências africanas ou árabes, clássicas, do rock ou funk porque isso me ajuda a expressar emoções mais precisamente. É como quando você fala e usa uma palavra em outro idioma, pois essa palavra é mais exata para o que você quer dizer e você não possui algo tão exato em sua própria língua. Para mim, na música é a mesma coisa. Se você fica em um estilo específico, você se prende em algo interessante mas muito pequeno. Quanto mais eu uso estilos diferentes, mais cores eu possuo para pintar. Eu não tenho apenas as cores básicas.

Em "RXRA" foi a primeira vez que você escreveu letras. Foi difícil?
Eu devo dizer que provavelmente foi mais difícil do que escrever músicas, pelo menos para mim, pois componho desde que nasci. E também porque quando se está compondo, você tem uma guitarra ou um teclado e está tocando ao mesmo tempo. É divertido e ao mesmo tempo é um jogo. Mas quando se escreve é muito difícil tocar ou se divertir com uma caneta. Agora que álbum está pronto, as memórias e sentimentos que eu tenho em relação a isso é que foi divertido e novo. Agora, quando eu voltar a escrever letras, será tão divertido como escrever músicas. É mais difícil, mas existe algo muito interessante em escrever letras. As pessoas podem entender, pois a música é muito abstrata, mas as letras são muito precisas.

Quem são seus "pais espirituais"?
Eu realmente não gosto das palavras "pais espirituais". Eu acho ambíguo. Quando se fala assim geralmente significa que alguém fez você descobrir a espiritualidade. Eu não tenho isso na música, pois eu descobri a música antes de descobrir pais espirituais. Eu comecei a tocar música com cinco anos de idade e isso foi antes até de ouvir música realmente. Existem muitas pessoas cuja música eu amo e admiro. Na música clássica meus favoritos são Stravinski, Ravel, Debussy, Bartok e Mozart, mas Mozart é algo a mais, é uma exceção. No pop rock Led Zeppelin era minha banda favorita quando eu era um garoto, então isso foi uma grande influência. Foi a única banda que eu possuía todos os discos, e comprei todos novamente quando foram lançados em Cd. Quem eu amo? Prince com certeza, Sting com e sem The Police, James Brown, Jimi Hendrix, Jaco Pastorius porque ele mudou totalmente a maneira como os baixistas tocam assim como Jimi Hendrix revolucionou a guitarra. Mesmo sem saber, todos os guitarristas foram influenciados por Hendrix e todos os baixistas por Jaco Pastorius. Realmente muitas pessoas.

O disco foi lançado em diferentes versões (em francês, inglês e uma edição especial em japonês). Essa é uma maneira de conseguir atingir um público mundial?
Eu fiz este álbum em versões diferentes especialmente porque eu sou uma das raras pessoas francesas que teve sorte suficiente de se tornar um pouco conhecido em outros países. Agora eu quero tocar minha música e minhas letras, e quero que todos escutem. A única maneira de fazer isso era cantando em inglês. Mas eu sou francês e também queria cantar em francês para os franceses, pois a música é a única linguagem universal. Seria estúpido ficar preso em apenas uma linguagem. Eu não sinto nada especial em francês ou em qualquer outra língua. Eu sou um músico e eu quero falar para os humanos. Se eles gostarem do eu faço vão entender as letras. Foi por isso que eu fiz as versões em francês e inglês. Eu gravei uma versão especial de uma canção em japonês. Primeiro porque eu gosto de falar japonês e segundo porque o Japão é um dos países em que as pessoas são boas comigo. Eles gostam da minha música. Cada vez que eu vou ao Japão sou bem recebido, de forma até melhor do que em meu próprio país. Foi uma forma de demonstrar meu respeito fazer uma canção em japonês. Eu também fiz uma versão em espanhol por diversão e acho que é uma marca de respeito fazer o esforço de tentar falar a língua das pessoas com quem você está falando.

Se você pudesse refazer sua carreira musical, você faria de forma diferente?
Se eu pudesse fazer minha carreira de novo, com a experiência que tenho hoje, tentaria fazê-la melhor. Mas eu faria a mesma coisa pois todas as escolhas que fiz foram sinceras e respeitando a música. A música é a coisa que mais respeito entre todas as outras coisas na Terra. Então eu não me arrependo de nada pois nunca fiz nada que não me orgulhasse. Eu sempre me diverti e espero poder ter muita diversão até o dia em que morrer. Talvez a única coisa que eu iria mudar: teria feito a banda antes...

Por Anthony Augendre

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