Fidelidade

                 
    Estava sossegado no quarto em meu leito
    lembrando os tristes dias de um sonho já desfeito
    e eis que em furacão chegou aos meus ouvidos
    lamentos de um cão em uivos e gemidos
    Descubro onde está o pobre animal
    Nas garras de um vizinho, de um homem bestial!
    Protesto, grito, minto: Vizinho, o cão é meu!
    Leve-o, diz-me o homem, mas prove que ele
        é teu!

    E guarde-o, guarde-o bem, e crê que do contrário
    em pedacinhos o faço, ladrão, cão ordinário
    Um cão que vem roubar de um sábio a paciência
    De um cão, que rouba e come, não tenho
        mais clemência!
    Não querendo então passar por mentiroso
    tentei levar o cão das garras do maldoso
    Mas vejo com espanto que o animal protesta
    correndo alegre para o sábio lhe fazendo festa

    Eu disse então ao sábio: Repara que esse cão
    é mais sábio do que tu e dá-te uma lição!
    Quem sabe se não está, ó sábio não proteste
    encarnada neste cão a alma de teu mestre
    Não dê, ó grande sábio, pancada nesse cão
    Tal qual esse animal já dei meu coração
    Fui cão de uma mulher a quem julgava honesta
    Tratou-me como um cão e eu lhe fazia festa!



 
    Autoria: Vicente Celestino

    Lançamento: outubro de 1937



 

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